Ponte Suspensa

Stella Ramos
09 de Maio de 2020

(a Ítalo, como num reencontro)

Colagem: Ana Persona

Zauber é pequena e clara, cidade de prédios baixos e pouca população. Por matéria de latitude, tem longos dias e luminosidade esparramada em ruas folgadas de espaço e gente. A caminho do poente, há um rio que a corta em dois terços, braço d’água modesto mas anelado de pontes por todo o seu corpo.

Os arcos sobre o rio tem formatos e tamanhos diversos, desenhando-no com braceletes variados, vaidade que se familiariza com seu nome feminino, derramado: Alzira, seu rio de águas claras.

Em sua quietude atenta, a cidade transpira um mistério discreto, lacrado displicentemente por olhares silenciosos. Assunto que não se comenta, embora tão conhecido de todos quanto a cor que o sol traz às suas paredes alaranjadas.

Diariamente distraídos por seus afazeres cotidianos, os habitantes de Zauber tem o curioso hábito de atravessar Alzira várias vezes ao dia, fazendo de suas pontes palco de piqueniques, encontros, resoluções práticas e reuniões furtivas. Suas pontes não são apenas caminhos construídos no ar, são também acolhimento sem teto, passeio público dedicado às mais supérfluas utilidades.

No meio de tantos elos aéreos, há um hábito que embora compartilhado por todos, é mantido em segredo por seu mistério tão sutil que pode ser desfeito apenas por sua menção em voz alta. Há uma ponte que se desfaz diariamente. Para reconstruí-la é preciso uma indagação, um impulso. Um dos habitantes de Zauber se aproxima do rio Alzira, em seu amanhecer de águas frias e superfície enevoada, e olha atentamente para a outra margem. A dificuldade em se enxergar o outro lado acaba por converter a neblina em imagem de desejo, trazendo à tona uma ponte etérea, quase imaterial. A ponte começa a se construir nos olhos, e assim, à medida em que a vontade se intensifica, é transportada também para o centro das duas margens, edificada de maneira discreta e silenciosa.

Uma vez pronta, os habitantes podem cruzá-la, na direção do desejo de quem a ergueu, e assim experimentam diariamente o intercâmbio das vontades da população. Há casos em que o desejo se concentra em outro habitante, que se vê irremediavelmente atraído à margem oposta à do capricho. É comum haver alguma confusão, porque além do desejo ser compartilhado com todos, nem sempre a névoa que envolve a ponte suspensa permite enxergar bem quem vem ao seu encontro.

É também comum que os desejos se direcionem para fora dos muros de Zauber, o que causa um fenômeno ainda mais curioso: a vontade de ultrapassá-los exige a visualização do lugar onde se quer ir, e a partilha deste novo local acaba por criar paisagens que modificam a margem oposta, a cada vez que alguém cruza a ponte em sua direção.

Quando o desejo se mistura aos sonhos tidos por uma pessoa qualquer, a paisagem discretamente apresenta absurdos daqueles só vividos nesse outro mundo: pessoas voando, cachorros que falam, rostos repetidos em corpos diferentes, e o que mais permitir a conversa que dá férias à consciência.

Ainda é possível que o pedido à ponte seja movido por motivações profundas e espirituais, levando algum morador para dentro de si mesmo. No momento em que outros a atravessam, acabam por encontrar-se com faces não imaginadas de seus conterrâneos, com medos e aspirações, com sua nobreza essencial.

Findo o dia, a luz do sol se desprende das águas de Alzira, e a ponte se desfaz tão lentamente quanto se montou. Será preciso outro desejo, de algum habitante inquieto, para que se monte novamente no dia seguinte. A cada dia, Zauber abriga em si homens e mulheres que se encontram nas pontes feitas de pedra e sonhos, hábito de cruzar o ar.

Stella Ramos é licenciada e bacharel em Artes Plásticas pela Unicamp. Trabalha com formação de educadores e desenvolvimento de materiais educativos para instituições culturais, e como arte educadora nas áreas de artes visuais e cinema. Trabalha em projetos que buscam conjugar os campos do jogo e da arte; e intervenções artísticas que conjugam artes visuais e literatura. É sócia/fundadora do coletivo de artistas/educadores Zebra5.

Ana Persona é comunicadora, mineira e vive em São Paulo há mais de 20 anos. Além de se dedicar à poesia visual e escrita, também ilustra matérias para veículos de comunicação e ministra oficinas de arte urbana em escolas e projetos educacionais. Para esta edição, criou as colagens que ilustram os textos Otto sai da padaria bologna com seu broto francês e Ponte Suspensa. Portifólio