A palavra ocupa espaços

Letícia Becker Savastano, Rafael Baldam
09 de Maio de 2020
Fotos: Letícia Becker Savastano

A palavra-cidade compreende uma complexidade tão grande que é comum utilizarmos analogias para dar conta do seu significado. O palimpsesto uma é uma dessas formas de explicar a cidade através da palavra e do texto. Durante a Idade Média, alguns pergaminhos tinham seus textos eliminados via lavagem ou raspagem para que assim pudesse receber um novo texto. Todavia, os rastros dos textos anteriores persistem no papel, fazendo com que as novas palavras convivam com as palavras antigas naquele mesmo espaço de papiro. O palimpsesto, então, é este espaço (de papel ou de cidade) que recebe diversos textos em diversos tempos, anacronicamente, uns sobre os outros, disputando palavras, narrativas e significados.

Essa analogia possibilita perceber a cidade como produto e produtora de relações sociais e culturais constituídas pela concatenação de linguagem, pela polifonia de vozes e pela presença de enunciados que, como manchas gráficas, se antecedem e se sucedem, caracterizando a contradição: se na cidade somos todxs enunciadorxs e enunciatárixs, leitorxs e autorxs, por que alguns se destacam, enquanto outros escapam, são silenciados ou interditados? Ou, ainda, como perguntou Foucault em sua aula inaugural no Collége de France (1970) intitulada “A ordem do discurso”: Por que esse enunciado, e não outro em seu lugar?

Afinal, quem escolhe o que a cidade irá representar e apresentar? Quem pode existir na cidade? Quais histórias e estórias as cidades nos contam? E quais nós escolhemos ler, ver e escutar? São esses algumas das questões que tensionam essa edição da Rasante#5.

Por meio de relações entre palavra e cidade, iremos propor investigações de manifestações no espaço urbano como forma de linguagem, encarando as palavras como possíveis dispositivos de criar geografias, conteúdos, intertextos e narrativas.

Entendemos que a cidade é memória – viva, absoluta e em constante movimento -, e materialização de discursos históricos que, vinculados ao poder, são relativos e partidários. É possível perceber isso pelo simples ato de percorrer uma rua, sendo que esta pode nos despertar lembranças pessoais ao mesmo tempo em que nos contará histórias a partir de significados que aqueles lugares representam coletivamente, como um texto que se cria na nossa cabeça em tempo real.

Mas as ruas são, muitas vezes, esburacadas. A cidade é constituída por um terreno árduo e cheio de lacunas, apagamentos invisibilidades e silenciamentos. Silêncios que são impossíveis em termos absolutos pois deixam rastros, fantasmas, manchas gráficas: a cidade invisível é também uma cidade densa de (his)estórias. Nesses termos, vejamos as cidades brasileiras e como nelas ressoa seu passado colonial, seus monumentos aos bandeirantes e elogios à genocidas estampados em placas nomeando avenidas. As histórias contadas nas ruas apresentam, assim, narrativas estéticas próprias, com gramáticas próprias e um espaço físico impregnado de conceitos culturais.

As teorias da linguagem revelam, portanto, relações entre cidade, estética e política uma vez que os textos-cidades são formados por discursos em oposição a outros discursos. É isso que, constituindo um lugar histórico social, da historicidade ao texto-cidade: um porvir, lugar de trocas de informações e trocas de efeitos e sentidos que se afetam incessantemente constituindo realidades físicas e imaginários sociais.

A palavra escrita pode criar cidades inteiras, como na obra seminal de Ítalo Calvino, “As Cidades Invisíveis” (1972). Neste livro, Calvino atua como um urbanista do fantástico fazendo crescer cidades na sua extensão ao mesmo tempo em que as coloca para dentro das personagens e do leitor, uma troca introspectiva. Em diálogo com Calvino, Stella Ramos cria a cidade Zauber em seu conto publicado nesta edição da Rasante. Buscando a fluidez de formas e significados, a autora delineia espaços transformando-os em lugares.

Existem também diversxs poetas que colocam a estética espacial no papel e no texto, como por exemplo os concretos alimentados pela arquitetura moderna e metropolização da cidade ou, por outro lado, os libertários situacionistas que ocupam o espaço com suas linguagens corporais propondo questões mais abertas.

Surrealistas como André Breton, por exemplo, desenvolvem relações entre lugares e palavras transformando suas caminhadas em narrativas e registros afetivos em busca de si mesmo. “Quem sou eu?”, é a pergunta com a qual ele inicia suas aventuras urbanas narradas em Nadja (2007) deixando com que o corpo - em relação com a cidade - revele ideias antes mesmo de serem racionalizadas.

A cidade é campo para muitxs romancistas, errantes e flâneurs que a percorrem coletando cenas e objetos, aos modos de um trapeiro (imagem benjaminiana a partir do poeta Baudelaire) , para então traduzi-los em palavras. Mas, como narrar o fluxo incessante e cotidiano, consciente, inconsciente e subjetivo de uma caminhada urbana?

Trata-se de uma negociação e rearticulação com aquilo que é apreendido pelo corpo em outra linguagem. Bruno Alves traz experiências erráticas por meio cartografias psicogeográficas em forma de uma poesia na qual ele relata seus encontros inusitados com a rua, e ensaia poeticamente sobre a deriva como prática criativa entre a imprevisibilidade urbana. Tanto o poema quanto o ensaio estão publicados nesta edição da Rasante, que é lançada em um momento tão difícil para a cidade e nós, habitantes.

Não imaginávamos que a lançaríamos a edição da Rasante #5 durante um confinamento sem precedentes em função de uma pandemia. Momento no qual a cidade com conhecíamos, em termos de distanciamento, se encobre por um tom nostálgico.

Mas, em momentos como este se destacam intersecções sobreviventes entre palavras, cidade e, política. É o que fazem as projeções e efeitos nas fachadas dos prédios facilitadas pelo coletivo Projetemos, por exemplo, colocando demandas políticas e indignações no espaço público, tecendo laços. O ato poético também é um ato de resistência, que é também um ato estético.

Além destas, as imagens de resistência podem ser percebidas nos cotidianos de diversas outras maneiras. Isabela Sancho, por exemplo, nos conta em sua entrevista inédita alguns de seus modos poéticos de encarar o mundo. Para ela, imagem de resistência das árvores urbanas: as árvores são podadas periodicamente numa tentativa de controlar o seu tamanho. No entanto, à revelia das restrições arquitetônicas e urbanísticas, elas crescem.

Outra maneira de transgressão e afronta à ordem imposta das materializações urbanas é o pixo, comentado no ensaio de Lídia, Thales e Reinaldo. Explorando a palavra “saudade” pixada no corpo urbano, o trio pergunta: como uma cidade fraciona e se (re)organiza a partir de afetos comuns, como descontentamentos, injustiças e saudade? Saudade, palavra tão presente em tempos de confinamento, inscrita no corpo vivo da cidade por pessoas que desejam, de algum modo, comunicar algo sobre o tempo, distância e política.

Dialogando com todas essas questões, a edição é ilustrada por Ana Persona. A artista realiza colagens com imagens urbanas num exercício de ampliar os limites poéticos da palavra, des-locando elementos da cidade como um jogo de signos e significados nos deixando a questão: A cidade é texto? Ou é o texto que deseja ser cidade?

Boa leitura, boa caminhada!

Letícia Becker Savastano é arquiteta urbanista (FAU-Mackenzie) e mestranda na FAUUSP pensando diálogos entre imaginários urbanos e as artes visuais. Pesquisadora, trabalhou durante 5 anos na Editora Monolito. Escreve sobre arquitetura, cidades e artes visuais e atualmente está se especializando em revisão de textos.


Rafael Baldam é arquiteto e urbanista pela Unicamp e mestre em arquitetura e urbanismo pelo IAU USP; trabalha com design gráfico e pesquisa sobre as relações entre expressões culturais e espaço urbano, com trabalhos relacionando cinema, música, poesia, quadrinhos e cidade. Autor de "Mapas Secos ao Sol" (Poesia, Ed. Patuá, 2019) e "_quieto" (Quadrinhos, Ind, 2018). Portifólio