Três véus sobre a cidade

Rafael Baldam
09 de Junho de 2020
Joseph Kosuth, Uma e três cadeiras. Foto: MoMA Museum

Há certo mistério na forma com que ancoramos certos sentimentos a certos lugares. Um espaço construído é feito à revelia das sensações e histórias individuais que ali se desenrolarão. Até porque, considerar essa infinidade de subjetividades geraria um desenho impossível. O mistério reside no fato de que os espaços existem para todos que tem acesso a eles, no entanto cada um que os vive, os toma para si, colocando neles sua história, suas percepções: cada um constrói seu próprio lugar sobre o espaço dado. Proponho uma leitura da cidade em três aproximações, para entendermos como essas relações se constroem ou se ocultam.

A primeira aproximação se dá na cidade cotidiana. Se entendermos o espaço da cidade como um cenário por onde transitamos, usamos certos espaços, onde a maioria das coisas não nos importa, veríamos a cidade como um pano de fundo, uma paisagem de passagem. Moramos em uma casa, pegamos o metrô ou carro para o trabalho, almoçamos em um restaurante, o sinal vermelho demora a ficar verde, um morador de rua cruza o caminho. A maior parte do tempo vivemos essa cidade, aquela que se restringe à nossa realidade pessoal, como um círculo não muito grande desenhado ao redor de cada um. Essa é a cidade da crônica. Nela importa viver aquele dia, o trabalho, a escola, correr atrás do agora. Não importa a profundidade dos problemas urbanos, não há tempo para eles. A vida passa rápido. Nessa esfera, as relações construídas com o espaço urbano são passageiras, superficiais.

A segunda aproximação acontece em um salto para dentro. Quando observamos os mecanismos ocultos que movimentam as cidades, percebemos que existem forças que a moldam. Economia, política, movimentos sociais, são pressões que direcionam o que acontece nas cidades. No entanto são forças ocultas. A parte visível delas nos encara nas ruas, nos protestos, nas câmaras municipais, nos bancos, nos novos empreendimentos, nas obras, nos loteamentos inaugurados. E é justamente esta parte visível que dificulta o acesso ao entendimento dos movimentos submersos que acabam por moldar a cidade. É difícil superar a visibilidade das coisas. É preciso se afastar. Assim, percebemos que empreendimentos imobiliários são financiados por certos políticos, uma reintegração de posse é feita em nome de um banco que detém o terreno ocupado, que uma ocupação de um edifício por um movimento social é resultado de uma história de não-financiamento de moradia popular. Por baixo dos panos do visível a história se movimenta. Nessa esfera, as relações feitas com os lugares são obscuras, elas aparecem apenas para quem as procura.

A terceira aproximação acontece no indivíduo. Ao percorrer a cidade cada um a filtra através da experiência subjetiva. Assim cada lugar se faz diferente para cada um que o apreende. Não há outra alternativa, já que a história de cada um molda seu modo de ver o presente. É como se cada um nomeasse a cidade a sua maneira: para um, uma praça pode ser o lugar onde foi assaltado, para outro é onde deu o primeiro beijo. São dois lugares diferentes, num mesmo espaço. A memória faz o lugar. Essa relação criada liga algo imaterial (nossa memória) ao material (o espaço), passando pelo nosso corpo, que deve estar presente para que a ligação aconteça. Uma das pontas dessa linha, então, seria a construção mental que fazemos e que nos faz; o imaginário. Ao contrário do que possa parecer, mergulhar no imaginário não significa abraçar o escapismo de uma realidade áspera e de difícil apreensão. O caminho é mais complexo. É no imaginário que residem as construções mentais sobre as coisas, lugares, pessoas; é lá que são tecidos os significados das coisas e, consequentemente, nossa relação com elas.

Todo dia, a pressão do tempo nos molda, as pressões político-econômicas moldam o espaço urbano. Gostaria de salientar uma construção de cidade que não nasce de pressões, mas de sensações e memória, edificada aos poucos sob a mão do tempo, orgânica. Dentro da gente essa cidade se faz. Ela é como uma lente colocada entre nossos olhos e a cidade material; é uma leitura individual do urbano, uma sobreposição de imagens. A cidade “real”, física, não é a antítese da cidade imaginária, elas ocupam o mesmo espaço. Na esfera do subjetivo imaginário se dão conexões de significado entre o indivíduo e o espaço, a construção de lugares profundos: aqueles que resistem ao tempo subjetivo, permanecem na memória mesmo quando se desfazem no tempo material.

Estas não são camadas da cidade, não se colocam sempre uma sobre a outra, não estabelecem hierarquia. São irmãs. Se sobrepõem, justapõem, convivem ao mesmo tempo, se entrelaçam. São formas de ver a cidade, de tentar alcançar a complexidade inalcançável que é o espaço urbano vivido. No fundo, a cidade se faz a partir da retina. A força que molda a cidade é, no fim, a visão.


Este texto foi publicado originalmente no portal Vitruvius.

Rafael Baldam é arquiteto e urbanista pela Unicamp e mestre em arquitetura e urbanismo pelo IAU USP; trabalha com design gráfico e pesquisa sobre as relações entre expressões culturais e espaço urbano, com trabalhos relacionando cinema, música, poesia, quadrinhos e cidade. Autor de "Mapas Secos ao Sol" (Poesia, Ed. Patuá, 2019) e "_quieto" (Quadrinhos, Ind, 2018). Portifólio