Artivismo e a Queerentena: In-ventar lugares

Letícia Becker Savastano
24 de Junho de 2020
NOTAS PARA UM PRÓLOGO
0.1 Respaldo: ação ou efeito de respaldar; o encosto da cadeira ou de qualquer assento; apoio de caráter moral ou político; calosidade no lombo da cavalgadura causado por roçar na sela; nivelamento de paredes (de casas ou prédios, por exemplo); aplainamento da terra; ajuda, amparo, assistência, base. [1]
0.2 Vazio: que não contém nada ou, que contém ar; desocupado, vago, livre, desprovido; privado ou carente de algo; vão; que falta fundamento; desprovido de qualidade; que não produz efeito; inútil; que tem uma intersecção nula; espaço não ocupado. [2]
0.3 Respaldo vazio: composto pela fotografia Estado permanente em Vazão” (2020), de Vantees, que retrata a estrutura vazada do que seria uma cadeira de praia (não fosse o caso dessa estar sem tecido). Apoiada em pedras, tem seus pés submersos no raso do mar que circunda uma ilha. A ilha é como um corpo cercado pelo abismo (a água) que não divide, cerca - diria Wislawa Szymborska em autotomia.
Liberdade, 2020. Sabrina Savani. Coleção da artista.
Todas de Lenço, 2020. Leíner Hoki. Coleção da artista.
Intimidade, 2020. Sabrina Savani. Coleção da Artista
Fotografia que integra a série Rolê, 2018. Adriana Galuppo. Site da artista.
Cartografix do corpo, 2020. Androgino. Portfólio.
NOTAS PARA UM DESFECHO
1. Insula: Um corpo que se move, cria imagens e inventa lugares na busca de viver o instante. Neste vídeo-dança-poema com roteiro de Carolina Lobo e edição de Catarina Vaz, o casal de namoradas encontra na dança e na escrita maneiras de driblar a ansiedade durante o distanciamento social por conta do coronavírus - mas não só: a ansiedade também é causada pelas rígidas definições de sexualidade e gênero impostas por verdades sócio-histórico-culturais às quais Carolina rebate: Todas as insatisfações se deslocam em padrão dentro de mim, produzindo cada vez mais fluido.
2. Lobo: lóbulo ou animal mamífero muito conhecido por suas habilidades de sobrevivência (relacionadas à lealdade, inteligência, astúcia e coragem);sobrenome de Carolina.
3. Lobo da ínsula: é um lóbulo profundo, situado no fundo do sulco lateral do cérebro;
4. Insular: Adjetivo de dois gêneros. Relativo ou pertencente a ilha. Lembro-me de novo de Wislawa Szymborska: o abismo não nos divide, nos circunda.
5. O poema é autotomia e narra o movimento de uma holotúria que, em perigo, se divide em duas: com uma metade se entrega à voracidade do mundo, com a outra foge. Também nós - a poeta polaca continua - sabemos nos dividir, mas somente em corpo e sussurro interrompido.
Em corpo e poesia.
*
[1] Definições de Oxford Languages.
[2] Definições de Oxford Languages.
[3] Vinculado à secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, o museu tem por funções pesquisar-arquivar-garantir-preservar o patrimônio cultural da população LGBTQIA_+.
[4] Relativo não só pelo fato de não termos tido um lock-down no Brasil (até então), mas também pelo fato de sabermos que não são todas as pessoas que conseguem exercer do direito de se proteger em casa.
[5] Peça de tecido usado para alterar a aparência dos seios, minimizando sua saliência.
[6] BUTLER, J. Corpos que importam. Os limites discursivos do Sexo. São Paulo:n-1 edições + crocodilo, 2019.
[7] GAGLIONI, Cesar. O que há de ilegal na censura de Crivella na Bienal do Rio. Nexo. 06 setembro 2019. Disponível AQUI.
[8] HOKI, Leíner. Sapatonas do Mundo, Univos. Dissertação de mestrado para a Faculdade de Belas Artes da UFMG, 2020.
[9] Mobilização das ruas com marchas e protestos no Dia internacional das mulheres.
[10] É curioso também notar que tais corpos, no senso comum, são entendidos como homem e mulher pelo único fato de um desses corpos vestir terno e o outro uma regata rosa.
[11] FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Editora Loyola, 1996.
[12] BUTLER, Judith. Quadros de guerra – quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.
[13] Ver: CYMBALISTA,R. Mobilização da memória em lugares de morte em São Paulo: Flavio Sant’anna, Edson Nerys e Andrea de Mayo. In: Revista do centro de pesquisa e formação SESC n.5 setembro, 2017. Disponível AQUI.
[14] Ibidem.
[15] Apesar de nos Estados Unidos a parada acontecer no dia 1 de julho, aqui em SP-Brasil acontece oportunamente nessa data por conta do feriado de Corpus Christi . Com feriado prolongado, mais pessoas (inclusive de outras cidades e estados) conseguem comparecer.
[16] BENTO, Berenice. Transviad@ s: gênero, sexualidade e direitos humanos. EdUFBA, 2017.
[17] HOKI, Leíner. Sapatonas do Mundo, Univos. Dissertação de mestrado para a Faculdade de Belas Artes da UFMG, 2020.
[18] Vide o dossiê e de assassinato e violência contra pessoas trans. Disponível AQUI.
[19] Ler texto postado pela pesquisadora e poeta no instagram @tatianascivento no dia 11 de junho de 2020 de título “ O maior privilégio branco que existe”.
[20] O brasil registrou o primeiro caso no dia 26 de fevereiro e, no dia 6 de junho, com base nas informações do Ministério da saúde, já tinham 672.846 casos registrados. Nesse momento, dia 11 de junho, somam-se quase 40 mil mortes causadas por covid- 19. Atualização: no dia 22 de junho, quando finalizo esse texto, já são 50 mil mortes e 1 milhão e casos.
[21] Atualmente a doença crônica é tratada gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) – que também disponibiliza testes. A medicação é avançada e eficaz, portanto, com uso correto do medicamento, é possível manter a saúde plena e tornar a doença indetectável e intransmissível. Para a desmistificação da doença - que ainda carrega um estigma por conta da ignorância, preconceito, homofobia e falta de abordagem aberta e clara do assunto-, recomendo o filme “Carta Para Além dos Muros” disponível na NETFLIX e parte do projeto #PrecisamosFalarSobreIsso (@precisamosfalarsobreisso).
[22] PERLONGHER, Néstor. O desaparecimento da homossexualidade. In: Saúdeloucura, 3. 1991.
[23] VIDARTE, Paco. Ética Bixa. São Paulo: n-1, 2019.
[24] PELÚCIO, Larissa. O cu (de) Preciado–estratégias cucarachas para não higienizar o queer no Brasil. Iberic@ l, p. 123-136, 2016.
[25] Em referência a Paul B. Preciado.
[26] Cucarachas, baratas em espanhol, foi uma expressão usada muitas vezes para nomear peojorativamente imigrantes latino-americanos nos estados unidos.

Conduzido pela exposição online Queerentena (2020) do Museu da Diversidade Sexual (SP) inaugurada no dia 28 de maio, este ensaio pensa relações de corpos queer com a cidade considerando o momento de distanciamento social e isolamento.


MÊS DO ORGULHO LGBTQIA_+: LIBERDADE! LIBERDADE?

Ter lugar e tê-lo reconhecido; existir; resistir ao constrangimento, à violência e à falta de respaldo; não envergonhar-se de si. Essas são algumas das tantas motivações do mês de junho que celebra o orgulho LGBTQIA_+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, transgêneres, travestis, transvestigêneres, queer, intersex, assexuais, _+).

A data é marcada por um evento histórico que aconteceu no dia 28 de junho de 1969, quando jovens LGBTs reunidos no bar Stonewall Inn, em Nova York – EUA e, acusades de condutas imorais, reagiram à homofóbica batida policial. O dia seguinte desencadeou-se numa mobilização que ficou conhecida como revolta Stonewall, impulsionando diversos protestos – inclusive na organização da primeira marcha do orgulho no dia 1o de Julho de 1970.

Ser queer não é sobre ter direito à privacidade; é sobre a liberdade de ser público, de simplesmente sermos quem somos. (...) significa combater um vírus também, e todos aqueles homofóbicos que estão usando a aids para nos varrer da face da terra.” (Manifesto queer nation)

A palavra “liberdade” nomeia a obra de Sabrina Savani (2020), uma colagem composta por quatro repetições do corpo de uma mulher negra que sorri. Uma delas levanta a mão em gesto de leveza (mas também de reivindicação), talvez depois de tanto cerrá-lo em gesto de resistência. Seu sorriso esboça emoções que, embora indescritíveis, arrisco algumas palavras: alívio, prazer, gozo, sonho, frescor, bem-estar, força, insurreição, lampejo liberdade. Liberdade? Afinal, quem é que tem o direito de sentir-se livre? É o que parece perguntar o post it que integra a colagem com um trecho da música freedom de Beyoncé: Liberdade, onde está você? Porque eu preciso de liberdade também.

Segundo Savani, a obra Liberdade foi inspirada no filme Queen&Slim (2020). O longa narra a história de um casal que, logo no primeiro encontro, reage em legitima defesa à uma batida racista da polícia norte americana. Depois disso, são forçades a fugir juntes. Quem realiza o roteiro do filme é Lena Waithe enquanto a direção, não por acaso, fica a cargo de Melina Matsoukas – que também dirigiu o clipe Formation, de Beyoncé, denunciando a violência policial.

Essa obra de Savani integra a exposição em formato digital Queerentena (queer + quarentena) no Museu da Diversidade Sexual de São Paulo (MDS) [3]. A mostra formou-se a partir de um edital aberto para que artistas LGBTQIA_+ compartilhassem reflexões de suas vivências durante o relativo [4] distanciamento social imposto pela pandemia da COVID-19, servindo de plataforma para discutir pautas como discriminação, exclusão, medo e solidão. Sentimentos que se atualizam, mas diga-se, não se restringem ao momento da pandemia do novo coronavírus.

É o que mostra Tata Barreto em sua fotoperformance Quarentine King: vestindo um moletom aberto, revela os binders [5], os tanquinhos desenhados no abdômen e a cueca. A máscara cobre a boca, mas resta o olhar íntimo da persona Drag King encarando o mundo externo através das grades, imaginando lugares onde as práticas de gênero não estariam sitiadas em quarentena, como que se perguntando junto a abigail Campos Leal: de que modo tornar esse novo mundo de exceção habitável?

[...] no gênero também precisamos sobreviver ao coronavírus e ainda sermos capazes de estender no tempo e no espaço essa zona que as pessoas trans (mas não só) tem criado, onde o gênero está cercado [...] queremos que o ar siga sem a sua poluição acinzentada [...] queremos que pessoas pobres continuem a ter acesso a renda básica, mas queremos também que não-binárias de pernas peludas possam ter prosperidade econômica; queremos ver rios voltando a ser povoados por peixes y pela vida animal, mas queremos também ver a calmaria ecológica que uma cachoeira traz nos peitos desacuendados de um boyceta. (CAMPOS, L. a., 2020)

Tata Barreto aponta para um desenho de so/ci(e)dade que opera por procedimentos de exclusão definindo espaços que funcionam com mecanismos de aceitação e rejeição, decretando quais corpos podem e quais não podem entrar. Isto é, quais corpos podem existir, ou não, em determinado lugar; a quais corpos atribui-se importância e a quais não (BUTLER, 2019) [6]; quais corpos recebem respaldo, e quais são abjetos, expulsos, negados, oprimidos, reprimidos e silenciados; quais corpos podem, e quais não podem, falar.


E QUEM É QUE DEFINE O QUE PODE E O QUE NÃO PODE SER MOSTRADO?

O movimento da censura tem sido recorrente dentro do próprio circuito da arte. Só no ano de 2017, houveram ataques à mostra “queer museu- cartografias da diferença na Arte Brasileira” no Santander Cultural em Porto Alegre (que foi cancelada); à apresentação da peça “O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu” de Jo Clifford, no Sesc Jundiaí (que foi proibida por uma liminar judicial porque Jesus era interpretado pela atriz transexual Renata Carvalho); à performance La Bête realizada na abertura do 35o Panorama da Arte Brasileira no Museu de Arte Moderna (que foi cancelada). Sucessão de fatos que levaram o Museu de Arte de São Paulo (MASP) a estabelecer, pela primeira vez em sua história, uma classificação restritiva de 18 anos para uma exposição, a “Histórias da Sexualidade”.

Já no ano de 2019 o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, censurou de maneira homofóbica e abusiva [7] o HQ Vingadores: A cruzada das crianças que estavam sendo vendidas na X Bienal do Livro na capital carioca. Crivella mandou que os exemplares fossem embalados em um plástico preto e lacrado com aviso sobre o teor do conteúdo que retratava o beijo entre dois homens. No rastros desses acontecimentos, Leíner Hoki [8] pergunta: do que é capaz uma imagem de afeto?

E é pensando nessas relações de poder, política e sexualidade, tensionando as significações do que é lícito e do que é ilícito, que Leíner Hoki realiza a obra Todas de Lenço (2020). A artista intervém na fotografia de um beijo entre ela e a namorada desenhando sobre um pano que cobre o rosto de cada uma delas. E, como ela mesma disse certa vez “toda imagem é um pouco a história da imagem” : trata-se de uma resposta a um comentário que sua namorada recebeu do pai quando viu a foto registrada durante uma manifestação de movimento social no 8M [9] na qual ambas usavam máscaras (se protegendo da recorrente repressão violenta da força do Estado) e aconselhou-a dizendo que ela não deveria fazer nada que exigisse ter seu rosto coberto.

Pouco tempo depois, no fim de março, a máscara começa a ser completamente ressignificada na sociedade, ao passo que seu uso torna-se obrigatório na tentativa de controlar a disseminação do novo coronavírus. Poderíamos, ironicamente, aproximar sua fotografia da imagem “Amantes II” de Renné Magritte, que flerta com o jogo das representações, do que é visível e do que é não é ao retratar dois corpos que se beijam com os rostos cobertos. Qual será a história que está por trás dessa imagem? Por que será que tais rostos estão interditados? [10]


E QUEM É QUE DEFINE QUAIS CORPOS PODEM EXISTIR E QUAIS NÃO PODEM?

Os princípios de exclusão, de acordo com Michel Foucault [11], podem ser a separação, rejeição, repressão - que condena o corpo ao desaparecimento -, e a interdição, que controla o que há de ser dito: sabe-se que não se pode falar qualquer coisa em qualquer lugar a qualquer hora. No limite, faz nos questionar: quais corpos podem ou não existir? E, como segue desenvolvendo Judith Butler [12]: quais são as vidas válidas? Quais são as vidas passíveis de luto e quais não são?

*

Convém lembrar do contexto físico-histórico-simbólico no qual se insere o MDS, na praça da República. Foi nesse lugar, no dia 6 de fevereiro de 2000, que Edson Neris de 36 anos de idade foi linchado até a morte por expressar intimidades (leia-se: caminhar de mão dadas) com seu namorado (que conseguiu escapar) no espaço público. O crime cometido por um grupo de skinheads foi, pela primeira vez no Brasil, tipificado como crime de ódio (que nega o direito de existência do outro).

Depois disso desenrolaram algumas manifestações no local e tentativas de memorialização [13], até que no dia 28 de maio de 2012 o Governo do Estado inaugura em São Paulo o primeiro museu da diversidade do Hemisfério Sul, sendo um dos fatores de escolha do local justamente o fato deste ser o lugar de morte de Neris. Em vista disso, O MDS além de ser um lugar de resistência e celebração, é um marco de uma memória difícil mobilizada como lugar de ação política [14].

Em 2020, também no 28 de maio - quando o museu completa oito anos de existência -, é inaugurada a mostra digital Queerentena, respondendo ao momento de distanciamento social que impossibilita aglomerações, como a parada LGBTQIA_+ que aconteceria no dia 13 de Junho [15]. Dia que, apesar de todas as contradições mercadológicas e capitalistas (que devem ser revistas e olhadas crítica, desconfiada e atentamente) é de muita importância para nós da comunidade, pois é quando reivindicamos nosso direito de viver e ocupar livremente a cidade. É quando nos vemos na cidade.

Tais movimentos na rua são imprescindíveis. Como nos ensina a socióloga Berenice Bento (2017), [16] foi com a pedagogia dos movimentos sociais que aprendemos que a melhor proteção é a visibilidade política, capaz de ampliar a discussão sobre sexualidade e gênero levando-a da intimidade para o espaço público. Essa afirmação remete a mais uma obra de Sabrina Savani (não exposta na queerentena). Sobrepondo - ou colando - camadas, a artista ressignifica espaços pré-existentes na cidade e inventa um lugar possível de se estar - com intimidade e tudo! -, enquanto casal de lésbicas negras. Elas encaram a pessoa que observa e fazem-se presentes frente à cidade que muitas vezes as apaga, exclui, violenta, mata, interdita e esquece: vide o dossiê de lesbocídio.

Negras e lésbicas, latinas sapatonas, caminhoneiras racializadas, lésbicas amarelas, mulheres indígenas que amam mulheres têm em comum a luta contra o perigo de serem propositadamente esquecidas, engolidas por essa rede epistemicida que é tanto heterocentrada quanto racista e colonial. [17]

Além das pessoas lésbicas e negra, é preciso também lembrar que a população trans é uma das mais vulneráveis, uma vez que muites diles não tem o privilégio de proteger-se em casa. [18] E, em momentos como esses nos quais o corpo da cidade e os corpos na cidade sofrem sequelas devido a propagação do vírus, fica ainda mais evidente a importância desses encontros para resistir a apagamentos fazendo com que seja substancial a atuação de registro, disseminação e arquivamento do MDS e dos demais órgãos de pesquisa aqui citados.

Vivemos um período de intensificação das disputas narrativas, agravadas pela perversidade do (des)governo negacionista. Como se não bastasse, tal situação é somada ao histórico momento quando o mundo começa a desmascarar (com um delay de 5 séculos, alerta Tatiana Nascimento [19]) a supremacia branca como racismo estrutural. São monstruosas as manipulações que dissimula dados da população brasileira no contexto do novo coronavírus [20], principalmente em relação a saúde da população negra.


ISOLAMENTO

A falta de transparência quanto à saúde e números de mortos vítimas do vírus tem lembrado a muitos da epidemia do HIV (vírus da imunodeficiência humana) causador da AIDS (síndrome da imunodeficiência adquirida). É o que traz a obra Isolamento de Akira Umeda, propondo reflexões ao justapor a ideia de isolamento imposto socialmente com o início da propagação do HIV ao isolamento em cursos em tempos de Sars-Cov-2 (vírus causador da COVID-19).

Evidentemente, são vírus muito diferentes (em relação à causa, consequência e contaminação), logo, não se pretende tecer uma comparação, e sim alertar para tensões de ordem ética, social, territorial e de política negacionista. Desde os anos 1980 quando apareceram os primeiros casos até hoje, mais de 30 milhões de pessoas morreram de AIDS [21]. E, de maneira equivocada e homofóbica, a doença era associada à uma espécie de castigo à pessoas gays e oportunidade para varrê-las do mapa e desaparecer com arquivos – como colocou Néstor Perlongher (1991). [22]

É quando surge o ACT UP (AIDS coalition to Unleash the power - Coalizão de AIDS para libertar o poder), um grupo de ativistas autodefinido como diversificado e não partidário formado por indivíduos unidos pela indignação e comprometidos com a ação direta para pôr fim à crise da AIDS. Em ações de artivismos (arte + ativismo) e manifestações nas ruas (de celebração e luto), o grupo desenvolveu o slogan: silêncio = morte. Lembremos disso.

Há, portanto, diversas perspectivas pelas quais atuam sistemas de opressão, que atacam camadas sociais bem como suas intersecções de classe, raça, sexualidade e gênero. Causas que não devem ser sobrepostas, homogeneizadas, massificadas e nem confundidas, mas reivindicadas todas quando falamos sobre direitos humanos. Como disse Paco Vidarte [23], o poder não é uma forma concreta de opressão, recalque e controle instantâneo, caso por caso

Se uma mulher é maltratada, isso repercute na homofobia da sociedade. Se uma bixa é apedrejada, isso repercute no racismo da sociedade. Se um operário é explorado por seu patrão, isso repercute na misoginia da sociedade. Se um menino recebe um apelido preconceituoso, isso repercute na lesbofobia da sociedade.

Para que haja uma transformação, há de ser radical. Só assim poderíamos esboçar a ideia de uma cidade queer onde todes são possíveis e não mais estigmatizades tides como dissidentes, abjetes e marginais.


O CORPO NA CIDADE

E como seria uma cidade queer? É o que a filósofa e fotógrafa Adriana Galuppo se pergunta no ensaio Se essa rua fosse minha também: como fazer uma cidade queer? Uma cidade onde pudéssemos habitar? Onde coubéssemos? Como extravasar limitações do mundo binário e heteronormativo? Nessa busca, Galuppo desenvolve o projeto Rolê iniciado em 2017 como parte de sua pesquisa sobre Visibilidade, Trânsito e Mobilização da população LGBTQIA+ na cidade de Belo Horizonte, encontrando-a e fotografando-a durante seus Rolês no centro da cidade.

Não obstante, existe ainda uma pergunta anterior: o que, afinal, é ser Queer? Em inglês a palavra significa “estranho” e “excêntrico” e costumava ser usada pejorativamente em práticas de Bullyng e violências direcionadas à população LGBT tidas como aberrações e desviantes. Todavia, a palavra foi reapropriada por essa população como política de re-existência em prol da multiplicidade de expressões de sexualidade e gênero na luta contra identidades essencializadas. Muito conhecida pela filosofa Judith Butler, a teoria queer questiona o sistema binário sexual que privilegia o homem heterossexual monogâmico definindo hierarquias de valor social. São queers todes que buscam a incessante ampliação e vivência de sua sexualidade e identidade de gênero.

Fazendo a aproximação no Brasil, teóriques como Berenice Bento ensaiam expressões possíveis como “estudos transviad@s” para estudos queer, acreditando em sua contribuição para compreender que

  1. não existe diferença entre os processos de formação entre os ditos “normais” e “anormais”;

  2. a naturalização dos gêneros é um dos mais poderosos recursos acionados pelo estado ( e sustentado pelo poder/saber médico e pelos saberes psi) na manutenção de estruturas hierárquicas e assim éticas dos gêneros;

  3. a demanda das pessoas trans não é para se tornarem ‘heterossexuais consertados, mas fundamenta-se no reconhecimento de uma identidade de gênero diferente da imposta socialmente a partir da presença de uma determinada genitálias;

  4. a natureza das identidades de gênero é não serem naturais.

Já Larissa Pelúcio (2016) [24] problematiza o fato de que no Brasil os estudos queers já entraram pelas portas das universidade, diferentemente de como se passou nos EUA, onde trata-se, antes, de uma expressão política vinda das ruas e dos movimentos sociais. Nesse sentido, a antropóloga propõe as expressões “teoria cu” [25] e “saberes cucarachas” [26] como apropriações de identidades impostas pejorativamente para transformá-las em lutas teóricas. Provocativamente e loca-lizando-se no contexto Sul Global, Pelúcio nos lembra da condição culturalmente periférica do Brasil: na “geografia atomizada do mundo nos referimos muitas vezes ao nosso lugar de origem como sendo cu do mundo” e, acrescenta:

se o mundo tem cu é porque também tem cabeça. Uma cabeça pensante, que fica acima, ao norte, como convêm às cabeças. Essa metáfora morfológica desenha uma ordem política que assinala onde se produz conhecimento e onde se produz os espaços de experimentação daquelas teorias.

À essa imagem aproximo o mapa invertido de Joaquín Torres García, que faz-me lembrar de como as cartografias não são naturais, mas sim construções sócio-histórico-culturais. Afinal, cartografias ana-lisam ou produzem cidades?

E se as invertêssemos?


A CIDADE NO CORPO

Como as cidades, o corpo – matéria, imagem e discurso - é uma incessante construção social. Ou seja, seu mapeamento total e cristalizado é impossível. Arquivo vivo da história do processo de produção-reprodução sexual, a materialidade do corpo pode, segundo Berenice Bento, ser analisada como efeito de poder, sendo o sexo um dos padrões pelos quais a pessoa se torna viável qualificando um corpo para a vida no domínio humano.

Conforme afirmou anteriormente Judith Butler, se essa repetição pode construir uma ocasião para reelaborar de maneira crítica as normas aparentemente construtivas de gênero, como poderíamos compreender a repetição ritualizada por meio da qual essas normas produzem e estabilizam não só efeitos de gênero mas também a materialidade do sexo?

Podem ser esses alguns dos exercícios esboçados na performance quero reconhecer meu corpx, realizada por Andrógino (Alan Piter). Partindo da pesquisa de estudos de gênero, Andrógino utiliza ferramentas da topografia e cartografia para pensar questões de identidade de gênero em busca da possibilidade de existir, de estar presente.

Deste modo, o corpo - matéria inconstante e mutável -, existe no decorrer do gesto cartográfico reconhecendo a superfície. E, a partir dos traços, tal superfície pode passar a ocupar outras superfícies, transformando-as também em corpxs; paisagem; porção de alguma coisa.

A partir desse movimento, ficam algumas dúvidas: Andrógino reconhece a cartografia de seu corpo ou, ao se reapropriar desse território, o cria? Ou será que ile traz, de outras superfícies, cartografias possíveis para o corpo? Ou, ainda, considerando a situação de distanciamento do espaço urbano quando o corpo, ilhado, não pode ocupar a cidade: estaria Andrógino trazendo a cidade para seu corpx, que, incessantemente, se move, (re)cria imagens e inventa lugares ?

*

Como, no entanto, inventar lugares agora – quando é preciso afastar-se de seus pares e também dos espaços e eventos públicos? Eventos e encontros que firmavam-se no território da cidade onde exibíamos nossos corpos? Onde existíamos? O que resta quando esse espaço é subtraído? O que fazem e o que querem nossos corpos queers quando estamos isolades? O que sobrou para as distopias? Pergunta Gabriel Tantacoisa, que realiza um vídeo poema sobrepondo imagens e suas impressões do mundo, entre o fora e o dentro.

Talvez agora esteja no dentro, reflete caju, o close das corpas em tempo de distanciamento social. É tempo de inventar mais lugares.

Letícia Becker Savastano pesquisa e realiza um mestrado (fauusp) pensando diálogos entre arte, memória e imaginários urbanos. Escreve sobre arte, arquitetura e cidade. Site