O peso dos prédios

André Cordeiro
29 de Agosto de 2020
Yves Klein, Leap into the void.

TÉDIO

Dá um tédio

viver no meio

desses prédios.


Até a imaginação

é concreto.


Os pensamentos

são estátuas

do passado.


Não há por perto

resquícios do mato.


O que mais se aproxima

é uma árvore

no museu

da pré-história

do asfalto.


Dá um prédio

viver no meio

desses tédios.


TRISTE NÃO

Um corpo triste

é uma avenida

que não passa.


O que não passa

é uma avenida

triste.


Avenida que não

passa triste

é um corpo.


Eu avenida

passo corpo

triste

não.


CATÁSTROFE

Um verso

não mata a fome.


Dois versos

não se sabe.


Três versos

já matam um homem.


Uma catástrofe

causa uma estrofe.


CIDADE-SONHO

Eu amo

eu amo essa

cidade eu amo

sem sonetos

de amor

só de cidade.


Cidade sem amor

cem sonetos

de cidade

sonho amor

nessa cidade-sonho


como, bebo, transo

escarro, embriago, embaralho

deito, corro, bato

fumo, cuspo, furto

faísco, piso, furo

planto, mato, desmato

essa cidade


é um sonho

pesadelo medonho.

André Cordeiro é poeta recifense, 20 anos, trabalha a poesia entre o visual e o sonoro. Na cidade é onde expressa sua arte. Projeções, exposições, vídeo-poemas e performances poéticas são algumas das artimanhas usadas para transmitir a poesia sobre as metrópoles e o que lhe causa.