Museu Nacional em cinzas e a crise projetada

Rafael Baldam
03 de Setembro de 2018
Museu Nacional do RJ após incêndio. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

2018, incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Cerca de 20 milhões de itens, junto com boa parte do registro histórico do Brasil e da América são, hoje, cinzas. Em 2015, foi a vez do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo; 2013, do Memorial da América Latina, em São Paulo; 2010, do Instituto Butantan, também em São Paulo. Incêndios causados por mal funcionamento da infraestrutura dos prédios, em outras palavras: manutenção precária.

Em 2019 a Capes sofrerá corte de 500 milhões de reais, impactando diretamente o financiamento da pesquisa científica brasileira. A crise pela qual passou a UERJ no início de 2018, e os cortes de 44% no orçamento da FAPESP em 2017 são alguns outros exemplos. Se não é claro a todos, vale esclarecer que estas são instituições de ensino e pesquisa, que compõem o corpo cultural e científico do país.

Em 2016, a Emenda Constitucional n° 95, ou PEC 241, que congela os gastos públicos durante os próximos 20 anos, garantiu cortes significativos para as áreas da saúde, educação, ciência, para citar apenas algumas.

Alguns candidatos à presidência, em 2018, falam em extinção do Ministério da Cultura, outros sequer propõem qualquer intervenção de suporte à cultura. Enquanto isso, cursos que analisam a política brasileira pela perspectiva do golpe de 2016, ministrados em universidades públicas são coibidos pelo poder público.

Um projeto é uma vontade colocada em prática a partir de um plano geral. Um projeto pode ser invisível, mas seus resultados nunca são. Em primeiro plano, vemos a degradação progressiva de instituições de ensino, pesquisa e cultura. O conhecimento em si é, assim, colocado em cheque. Temos que lembrar que este não é um conhecimento dócil. Ele existe a partir do questionamento, da tensão sobre o status quo. É ele mesmo que está sob ataque.

No plano geral, vemos o desmantelamento da coisa pública. Se faz parte do imaginário popular que a escola pública é ruim, que os prédios públicos são de má qualidade, que qualquer instituição adjetivada como pública carrega o peso da precariedade, estamos diante, então, dos resultados de um (bem sucedido) projeto: descreditar instituições públicas em favor de iniciativas privadas. Acreditar que a salvação virá da esfera privada, faz esquecer que a própria precarização das instituições públicas é resultado de escolhas conscientes, não de descaso ou acidentes. Cria-se o problema para oferecer a solução. Isso é um projeto.

A Rasante, como um espaço de reflexão crítica sobre as cidades, arte e cultura, engrossa as fileiras que, juntas, acusam o declínio institucional do pensamento crítico e cultural brasileiro; ao mesmo tempo em que gritam de força, pelas iniciativas resistentes a este projeto que estreita nossa história, mente e futuro.

Rafael Baldam é arquiteto e urbanista pela Unicamp e mestre em arquitetura e urbanismo pelo IAU USP; trabalha com design gráfico e pesquisa sobre as relações entre expressões culturais e espaço urbano, com trabalhos relacionando cinema, música, poesia, quadrinhos e cidade. Autor de "Mapas Secos ao Sol" (Poesia, Ed. Patuá, 2019) e "_quieto" (Quadrinhos, Ind, 2018). Portifólio