Mergulho no invisível

Rafael Baldam
21 de Fevereiro de 2020
Fotos: Yasmin Pinheiro

A RASANTE parte do princípio de que a cidade, sendo uma manifestação física tectônica da ação do ser humano no território, antes, nasce de seus desejos. Aquilo que habita a mente como sonho, como potência de futuro eventualmente se conforma enquanto projeto e então, cidade.

Nesse sentido, a cidade pode ser lida como uma representação da mente. A maneira como nossas memórias se configuram e se re-associam têm paralelo com as transformações de bairros antigos e como são justapostos edifícios novos a velhos. Cabe a metáfora do palimpsesto: pergaminho que recebe um texto o qual é apagado e reutilizado diversas vezes, permitindo ver rastros das antigas palavras em meio às novas; assim como percebemos o texto urbano entrelaçando idades, raças, localidades, histórias. A construção de significados que se dá na mente identificando afetos, símbolos narrativos, também se dá na associação de significados a lugares identificados na cidade. Esta não é um espelho da mente, nem uma projeção literal desta, mas sim uma apresentação da mente organizada de modo tectônico, levando consigo as imprecisões que esta representação implica.

Com esta raiz no imaterial, o espaço urbano material se conforma e é preenchido por um volume também imaterial, fruto da experiência humana daquele espaço: processo de transforma-lo em lugar. Representar, apresentar uma imagem no lugar da coisa de fato, é em essência o mote da Rasante, que vê na exploração das representações artísticas uma forma de desvendar, ou ao menos se aproximar, dessa origem imaterial da cidade.

Como ferramenta de investigação do imaterial (e suas reverberações no espectro material, e vice-versa) se faz necessária uma estratégia que considere uma linha de ação racional, mas que abra-se para o sensorial, para o universo do não-dizível. Assim, a ferramenta escolhida direciona para resultados condizentes com ela. Como convenção, chamemos de arte o trabalho de representar ideias, coisas, imagens, conceitos, sonhos, etc.

O caminho de entendimento que a arte permite passa pelo campo que não é completamente traduzível no racional, e talvez por isso mesmo seus caminhos se aproximem daquilo que sentimos, daquilo de imaterial que nos constrói. As expressões artísticas então, agem como um processo duplo de representação entre uma primeira camada ligada à cidade, e uma segunda camada, que apresenta aquilo que a mente guarda.

Seguindo essa premissa, o que nos interessa em arte é seu fator de representação, não suas conjecturas sobre o que deve ou não ser arte, ou sobre o belo. Interessa observar a representação como forma de olhar o que ela esconde, olhar por debaixo da cortina da realidade.

Assim, cada modo de (re)apresentar a cidade implica em uma potencialidade e uma limitação. O que o cinema revela sobre a experiência humana na cidade contracena com o que a música revela (por exemplo), cada uma trazendo informações junto a seus atributos únicos. Isso se repete para outras forma de representação como a literatura, teatro, videogame, quadrinhos, artes plásticas, ilustração, escultura, etc.

Numa composição desses modos de ver, busca-se montar o quebra-cabeças invisível da cidade submersa que habita a cidade material.

Rafael Baldam é arquiteto e urbanista pela Unicamp e mestre em arquitetura e urbanismo pelo IAU USP; trabalha com design gráfico e pesquisa sobre as relações entre expressões culturais e espaço urbano, com trabalhos relacionando cinema, música, poesia, quadrinhos e cidade. Autor de "Mapas Secos ao Sol" (Poesia, Ed. Patuá, 2019) e "_quieto" (Quadrinhos, Ind, 2018). Portifólio