A Cidade e o Cinema: chamada para a Revista Rasante #6

Leticia Becker Savastano, Rafael Baldam
02 de Agosto de 2020
Filme: Frances Ha, 2013. Greta Gerwig, Noah Baumbach
[1] DELEUZE, Gilles. A imagem-movimento. São Paulo: Brasiliense, p. 1972-1990, 1985.
[2] Through the looking-glass:woman, Cinema, and Language – de Lauretis, de. Alice Doensn’t: Feminism, Semiotics, Cinema. Bloomigton: Indiana University Press, 1984.
[3] Campos, João Paulo De Freitas – O inferno do agora: uma leitura de Era uma Vez Brasília (2017), 2019
[4] NAME, Leonardo. O cinema e a cidade: simulação, vivência e influência.

Existem expressões e interpretações da cidade que não se dão por meio da linguagem textual, e o cinema é uma delas. Para a próxima edição da Revista Rasante, nossa proposição é pensar essa relação: Cinema e Cidade. O cinema, que pode ser uma representação indireta do tempo e que está apto a revelar ou criar espaços através da montagem de imagens diversas [1].

Para Teresa Lauretis [2] o cinema é uma tecnologia social. Isto é, mais do que um mecanismo técnico, é um aparato semiótico; uma relação entre a técnica e o social que envolve os sujeitos como (inter)locutores e os postula como lugar daquela relação. Portanto, da mesma maneira que a cidade, afirma Lauretis, a teoria cinemática foi construída através da história talhada em discursos e práticas historicamente específicos.

Já para Jean-Louis Comolli, o cinema pode ser uma ferramenta para duvidar da realidade – e que, por sua vez, também pode ser duvidada! Como e quem o cinema representa? Pode ser essa uma de nossas provocações. Pensando ainda que todo filme pressupõe uma narrativa deliberada, com escolhas do que mostrar e do que esconder, o autor indaga: quais cidades estão para além do enquadramento da tela?

Além disso, o cinema é uma forma de entretenimento urbana que, como disse Diego Penha, é um fenômeno historicamente coletivo assim como os circos, feiras e parques de diversão - “e esse traço sobrevive até hoje na nossa experiência de entrar numa sala com estranhos. [...] Não existe uma pequena sensação de que entramos em uma sessão cercados de desconhecidos e saímos com alguns cúmplices?”– Ele pergunta.

É esse um dos motivos, inclusive, pelo qual o cinema faz tanta falta nesse momento de distanciamento social imposto pela pandemia, mas que ao mesmo tempo é uma companhia possível (por meio de streamings, festivais online, salas de bate-papo, ou até mesmo drive-in). E é também por isso que pensamos nessa edição, uma vez que imaginamos que o cinema tem sido uma companhia para muitxs de vocês, como tem sido para nós. Cientes de que diálogos como este não substituem a “situação cinema”, mas que é uma maneira de conversarmos e trocarmos sobre cinema e cidade, queremos pensar juntxs sobre essas duas saudades que se interseccionam.

Como uma espécie de lugar possível, em consonância com que diz Graziela Marchetti, coordenadora de programação do CineSesc, que vê o cinema como uma atividade próxima da produção de sonhos.

Afinal, o cinema é uma fuga da realidade ou é uma janela aberta para uma melhor compreensão? – Essa é uma pergunta feita por João Paulo de Freitas Campos [3] que estudou a produção cinematográfica de Adirley Queirós, mais especificamente o filme “Era uma vez Brasilia”, no qual a cidade assume não só um pano de fundo para a construção da obra, e sim um papel de protagonismo. Podemos citar também praticamente toda a produção de Kleber Mendonça Filho, diretor de “O som ao Redor”, “Aquarius” e do mais recente Bacurau; ou o filme “A cidade onde envelheço”, de Marília Rocha. Fora do Brasil, a diretora Agnes Vardá também é bastante conhecida pelos papéis marcantes que atribui às cidades. É o caso do longa Cleo de 5 à 7 e do documentário Visage Villages; ou então Sofia Copola, que dirigiu o conhecido “Encontros e desencontros”; E claro, sem deixar de mencionar os clássicos futuristas Metropolis e Blade Runner.

Dito isso, perguntamos: quais os papéis que as cidades exercem nos filmes? Como elas são representadas? E o que elas representam?

Uma cidade, aos modos de um caleidoscópio, pode ser filmada focando aspectos diversos e pensar relações entre cidade e cinema implica em muitas perguntas, considerando abordagens históricas e políticas levantando problemáticas fundamentais para esses termos: como as de racismo, gênero, classe, sexualidade (entre mais) e como essas se situam geograficamente.

De que modo o cinema tem contribuído para a manutenção, transformação e subversão de estereótipos e clichês sobre cidades e seus habitantes? [4] Trata-se de interrogar o espaço que existe, como afirma a pesquisadora Silvana Oliverivit. Este é nosso convite para reunirmos e criarmos um diálogo sobre cidade e cinema, articulando os afetos que moldam o espaço vivido assim como povoam nossos sonhos.

Está aberta a temporada de envios de trabalhos para a Revista Rasante #6: Cidade e Cinema. Este período de envios vai até 5 de Novembro de 2020. Aceitamos ensaios, curtas, médias e longas-metragens, resenhas e críticas; sempre lembrando do escopo da RASANTE: articular as linguagens artísticas e culturais para debatermos questões urbanas. Caso você tenha alguma dúvida sobre o que nos enviar, ou tem alguma outra proposta, nos envie um email (revistarasante@gmail.com). Para enviar seu trabalho CLIQUE AQUI.

Letícia Becker Savastano é pesquisadorx e realiza um mestrado (fauusp) pensando diálogos entre arte, memória e imaginários urbanos. Escreve sobre arte, arquitetura e cidade.

Rafael Baldam é arquiteto e urbanista pela Unicamp e mestre em arquitetura e urbanismo pelo IAU USP; criador da RASANTE, trabalha com design gráfico e pesquisa sobre as relações entre expressões culturais e espaço urbano, com trabalhos ligando cinema, música, poesia, quadrinhos e cidade. Autor de "Traduções" (Quadrinhos, Ind, 2020), "Mapas Secos ao Sol" (Poesia, Ed. Patuá, 2019) e "_quieto" (Quadrinhos, Ind, 2018). Portifólio