A quase-vida de um ser-urbano

Tacio Russo
07 de Agosto de 2020
Colagem: Rafael Baldam.

Ele já era um elefante, já tinha dado uma boa parte do seu sangue para socorrer a cidade que lhe servia. Andava, então, por isso, em busca de feridas abertas e paredes rachadas para consertar, era um elefante consertador de cidades.

Assistia as pessoas na parada de ônibus, em pleno rush, intercalando as luzes do celular com a cor dos olhos e comparando as ruínas dos olhos das pessoas com o que sobrava das ruínas dos olhos da cidade. Comparava e logo voltava para suas feridas, era um elefante de restos de dias, pois os elefantes de fins de tarde possuíam ainda um pôr-do-sol na pele.

Por vezes, saía às 23hrs para tomar banho de lama, saciava-se com os rios que corriam de lábios boêmios, os rios de som de lama, gostava de ser a periferia das ruas centrais, onde bares, mesas e lábios se misturavam numa betoneira gigante que moía, moía, moía, mas na hora de despejar via-se o vazio. Era em lugares desse tipo que ele se sentia menos elefante, ou elefante de mais.

Quando pisava nos plásticos da cidade (e isso inclui desde objetos transportados da china até os egos costurados diariamente por uma rede que conectava a todos, ou pelo menos conectava os plásticos de todos e todos possuíam essa conexão plástico-humano-desumano-plástico que, por sua vez, era também, plástica... Quando pisava nos plásticos da cidade, ele, o elefante, pisava também em si.

Por olhar para cima e não enxergar mais o sol, a não ser pelos raios que refletiam nas janelas dos edifícios e nos para-brisas, ele pensava viver numa espécie de penumbra eterna, por isso andava tropeçando pela língua da cidade, apesar disso, o elefante ainda possuía uma grande quantidade de óculos escuros que usava todos os dias.

Sofria de uma dor de cabeça terrível, uma perpétua enxaqueca que atacava sempre no mesmo horário e nenhum analgésico a mandava embora, ele não sabia o motivo, só sabia que era um sintoma de algo bem maior, algo que o machucava bem lá dentro, algo que tinha medo de descobrir. Era um elefante doente.

Durante um tempo, entre fevereiro e março, percebeu que algo estava o assustando, sentia um incômodo como se alguma coisa muito grande e pesada tivesse pousado nos seus ombros //garra de trator demolindo parede// não conseguia identificar o que era de fato mas sentia medo, parecia que as máscaras diárias das pessoas fenomenalmente haviam se multiplicado, e tinha medo que alguém percebesse que ele estava com medo, então co-existia com aquele não-ser, e andava assim… na penumbra, com medo.

Certo dia ocorreu de consertar uma ponte onde um grande buraco abrira-se bem no meio, ao ponto de dar visão ao rio que corria por debaixo, ele assustou-se com aquilo, de alguma forma nunca percebeu que um rio dançava bem debaixo das suas pernas, pensou que talvez ninguém notaria caso ele resolvesse nadar um pouco, mesmo não sabendo nadar, a água era escura demais, turva, e ficou revoltado com o como aquela água parecia com tudo que ele via nas pessoas, nas paredes e nas ruas então apressou-se em tapar logo o buraco.

Numa manhã de quarta-feira, que nascera com um cheiro de amarelo-queimado, no cruzamento de uma rua chamada Hospício com outra chamada Boa Vista, quando ele levantou a cabeça – o que poucas vezes acontecia – percebeu que haviam muitos elefantes caídos, talvez deitados, talvez dormindo, talvez mortos.

Surpreendeu-se com a mudança, parecia que haviam resgatado uma cor dada como extinta na produção das cidades, durante anos ele só enxergou os dias em escalas de cinza, mas, naquele dia, ele viu muito vermelho espalhado ao redor dos elefantes, lembrou que o vermelho, até então, só trazia sensações boas, mas naquele dia, naquela quarta feira amarela, o elefante chorou.

Pensou, de cabeça baixa e atrapalhando o trânsito, o que poderia ter acontecido para que em tão pouco tempo tivessem surgido tantos elefantes mortos nas ruas, e, se sentindo inundado, olhou pra cidade tentando obter qualquer resposta que o fizesse de novo ignorar todo aquele instante extraordinário, mas logo desistiu, como costumava desistir das coisas, e, já há um bom tempo, a cidade já parecia ter desistido dele.

Tacio Russo, 25, é poeta e artista visual, recifense, utiliza da cidade e dos sentires que ela provoca no indivíduo como motriz gerador de suas produções, plataforma de intervenção e dispositivo de experiências.