Três cidades de Julia

Júlia Leite
08 de Julho de 2020

Nos três poemas que se seguem, Julia se movimenta por três cidades que ampliam-se, transformando-se em abrigo torto, e encolhem-se até caber no corpo; a poeta nos apresenta seu olhar sobre o corpo ocupando espaços. Ao fim, o corpo da gente é agente que converte espaços em lugares, ou não-lugares.


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DOMINGO

teu corpo

um bairro

que faz cócegas

nas minhas visitas

mais sérias


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NÃO-LUGAR

desculpa não ter ido te encontrar hoje,

parece que tudo ficou mais fincado ao chão

cama mesa cadeira corpo

e eu virei a própria moldura do nada pendurada no quarto

como todas as roupas órfãs de mim mesma

cada metro quadrado cabe um calendário

cada mês manchado de incógnitas

e não sei se você reparou,

a gravidade das coisas tomou proporções estranhas,

estratosféricas,

invertidas,

as paredes espessas.

me comunicar tem sido um passo de tonelada

tonelada de suspensão e silêncio.

agora entendo a aurora cheirando a brecha da porta,

querendo o que não consegue assimilar,

migalhas do exterior

com semblante de mudança


tudo está desmedido

e destinado à espera,

escrevo pra te alcançar na velocidade da luz,

o poema como uma boia nesse mar morto flutuando hojes e amanhãs e depois de amanhãs

do mesmo tom

esta carta como uma ambulância

correndo na contramão

desviando do congestionamento de ideias

do tráfego de desabamentos internos

pra me salvar da letargia

e te socorrer da solidão


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Julia Leite é escritora, formada em Cinema. Atuou como editora e curadora assistente do Festival do Minuto e é autora do livro de poemas "minúscula" (Editora Patuá, 2018). Dirigiu o curta-metragem "Ainda não" (disponível temporariamente na LGBTflix) e busca sempre trazer uma perspectiva de gênero e sexualidade para seus trabalhos.